De que forma vivo os desafios do meu filho?

Quando nos tornamos pais, algo se intensifica em nós: a preocupação.

De repente, vemo-nos no papel do cuidador e do protetor, tudo à nossa volta parece ameaçador e assustador, as emoções “negativas” tornam-se o grande inimigo.

À medida que os nossos filhos crescem, sentimos a necessidade de estarmos devidamente preparados para emergir em caso de potencial perigo ou para resolver qualquer situação ou desafio que eles tenham. Servimos como que de escudo nos momentos de frustração, de ansiedade, de desilusão ou de tristeza… e isso é perfeitamente normal. Ninguém gosta de ver o seu filho sofrer.

No entanto, esta nossa ânsia de querer resolver os “problemas” dos nossos filhos ou de protegê-los dos potenciais perigos ou das emoções mais desafiantes pode acabar por contribuir para que eles se sintam mais ansiosos e fragilizados. Em vez de os estarmos a ajudar, o que nós assumimos como sendo a nossa responsabilidade pode impedir que eles aprendam a conhecer-se e a desenvolver-se emocionalmente de forma saudável.

Vejo-me ainda algumas vezes nessa situação, mais com o meu filho mais velho. Durante muito tempo via os seus desafios como sendo os meus desafios, como algo que me definia a mim pela mãe que eu era. Se ele chorava por não conseguir chegar a um objeto, eu estava lá para lho dar. Se ele se zangava por não conseguir apertar o botão das calças ou os atacadores, eu resolvia de imediato. Se ele se sentia triste por um amigo lhe ter magoado, eu fazia o que podia para lhe “tirar” essa tristeza. Se ele tinha medo de alguma coisa, eu garantia que nunca mais teria de se preocupar com isso. Se ele partilhava comigo um desafio na escola, eu enchia-o de soluções para ele saber como fazer da próxima vez. Se ele ficava frustrado por não conseguir fazer um trabalho de casa, eu indicava-lhe a resposta… E depois ficava surpreendida, e muitas vezes irritada, por ele dizer tantas e tantas vezes “eu não consigo”, “não sei fazer”, “não sou capaz”, “anda lá, ajuda-me”, “tu é que sabes”…

A minha preocupação excessiva relativamente aos desafios dele impediam-no de perceber o seu próprio potencial, de descobrir a sua forma de fazer e de explorar as suas opções e impediam-me a mim de relaxar e confiar.

A Parentalidade Consciente trouxe-me uma nova perspetiva, aquela que permite hoje o meu filho vivenciar uma plenitude de emoções, aprender mais sobre si e responsabilizar-se mais relativamente às suas escolhas e aos seus comportamentos. Ainda há dias em que caio na tentação de o “salvar” mas já estou mais consciente 🙂

Por isso, hoje gostaria de partilhar algumas opções de forma a não limitar a autonomia dos nossos filhos:

  1. Quando uma criança está perante um desafio, e antes de lhe sugerirmos formas de ela o solucionar, é importante ouvirmos o que ela tem para partilhar connosco, ficarmos atentos às emoções presentes e reconhecermos o que ela está a experienciar. Mais do que soluções, ela precisa de se sentir vista e reconhecida. O que acontece muitas vezes é que os desafios que as crianças partilham, parecem irrelevantes a nós adultos pelo que tendemos em desvalorizá-los ou ignorá-los. No entanto, é importante termos consciência de que, para elas, os desafios são bem reais!
    Lembras-te de alguma situação em criança em que tenhas partilhado algum medo com um adulto? Como reagiu esse adulto? Como te sentiste? Como gostarias de te ter sentido?
  2. É importante conectarmo-nos realmente aos nossos filhos e ao que eles estão a sentir. As crianças captam quando as nossas palavras dizem uma coisa mas quando o nosso tom de voz e o nosso corpo dizem outra. Podemos até partilhar algum dos nossos próprios desafios que acharmos relevante no seguimento do desafio partilhado por eles. A ideia é eles se sentirem parte de um todo, saber que os pais também tiveram e têm desafios ou emoções semelhantes, e que isso faz parte da experiência humana. O fato das crianças perceberem que os pais também têm os seus medos, a sua própria vulnerabilidade faz com que se sintam mais compreendidas, mais integradas, mais capazes e dá-lhes coragem para continuar.
  3. Uma outra dica passar por ajudar os filhos a encontrarem as suas próprias soluções, fazendo perguntas 🙂 No caso da criança partilhar um medo por exemplo, podemos perguntar… medo de quê especificamente? Em que momento exatamente? De que forma? O que vês? O que ouves? O que sentes? Através das perguntas, e quando estas são feitas com amor e compaixão, ajudamos os nossos filhos a acederem a mais informação sobre o desafio ou o medo em questão, de forma a eles próprios perceberem melhor o que está a acontecer e estarem mais aptos a encontrarem soluções. No seguimento do que eles forem falando e revelando, podemos partilhar em conjunto ideias e soluções.
  4. Por último, confiar! Confiar que os nossos filhos têm os recursos necessários dentro deles para lidarem com os seus desafios. Confiar que eles são capazes, que eles encontram soluções, que eles sabem o que é melhor para eles. Confiar que, à semelhança de nós, as emoções que eles sentem não duram para sempre, elas estão lá quando precisam de estar e ajudam-nos a crescer, a fazer diferente, a experienciar a vida na sua plenitude.

Por muito que queiramos, não conseguimos estar sempre ao lado dos nossos filhos, prontos a intervir poupando-os dos dissabores da vida. Enquanto pais, podemos transmitir-lhes as ferramentas certas, dar-lhes o espaço que eles precisam, o nosso apoio, experiência e compaixão e o nosso amor incondicional para que eles possam desenvolver-se emocionalmente ao seu ritmo, à sua maneira e confiando no seu próprio potencial.

Um abraço de coração,

Elisabete Dias
Parentalidade & Relações Conscientes
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